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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Minha terra – Meus antepassados

Ao entrar na aldeia, deixando a estrada de terra, pisando no calçamento logo nota-se, odor, cheiro?Diria especificando, odor de raízes antigas curtidas. A terra dos meus pais e avós, do meu passado e antepassados. Ao lembrar lugares dessa terra, não há como não enumerar o turbilhão de fatos que se projetam na minha mente, às vezes um pouco turvos pelos anos que nos separam, mas que deixaram marcas indeléveis.
Aldeia?Vilarejo? Como quiser, o nome é Bulciago. Lá moram agricultores proprietários ou arrendatários de pequena quantidade de terra. Minha mãe era parte de uma dessas famílias, completa com mãe e dois irmãos, um casado e ainda lá residente.
Após o casamento, minha mãe transferiu-se para uma cidade grande, por assim dizer, onde papai tinha mais possibilidade de trabalho como pintor de broxa. Eu tinha dois anos, minha irmã quatro. Mamãe sempre manteve contato com a família, eu passava temporada na casa da avó, e para tio Giuseppe e sua esposa que tinham três filhos, eu era o quarto, quando lá hóspede.
A morada da avó, era em um pátio bem perto da praça da igreja, adentrava-se por um pórtico e logo à direita, um amplo estacionamento para carroça. Paredes de grande espessura e teto de tronco roliço sustentando prancha maciça. A mesma estrutura repetia-se no plano superior, onde havia os dormitórios.
No teto, repletos de espigas de milho, agrupadas em feixes, no pátio as andorinhas davam vôos rasantes e ensurdecedor gazear ao entardecer. Logo à esquerda, descendo dois degraus, uma porta, a tramela libera o acesso ao cômodo principal, tudo simples.
Uma grande mesa central, cadeiras em volta. Dois ferros salientes na parede a direita,sustentam baldes de cobre estanhado cheios de água, ladeados por concha esmaltada.
Uma enorme lareira, na parede em frente. Com certeza mais coisas havia, despensa, caixa tipo baú, não recordo bem. Mas nada levou da minha mente a gaveta da mesa.
Passava horas mexendo ali, nem tanto havia, mas tanto me cativavam o quebra-nozes, o saca-rolhas, a quantidade variada de rolhas, a crosta do queijo parmigiano ressecado. Os prendedores de roupa, sobra de lápis, dentes de alho, colheres, facas, garfos, tesoura, fósforos etc.
Porcaria? Nada porcaria! Cada coisa, seu lugar havia e tinha serventia.
O queijo ressecado da gaveta era substituto da atual chupeta,que com barbante era pendurado ao pescoço do babão, mesmo arrastado pelo chão, era santa solução.
A lareira e a avó. A lareira quase sempre acesa, a avó ao lado sentada no amplo espaço que o vão do assento proporcionava vigiava alternando a atenção ora ao fogo, ora às panelas, ora debulhava o rosário. Vovó Giuseppina, mulher de poucas palavras, um semblante cansado, mão carinhosa que deslizava na minha testa a sua mão toda hora.
Talvez, queria dizer-me coisas? Tempo! Tempo! Quantas palavras não ditas morrem sufocadas no peito?
Da lareira lembro o bater forte da panela de cobre, pendurada na corrente pendente da chaminé, quando tio Giuseppe tentando segurá-la com a mão esquerda para revolver a polenta com a direita, a panela batia forte na parede. A polenta já endurecida era tarefa árdua para virar.
Na casa da avó, a gente levanta ainda de madrugada e o dia acorda porque eles o espantam, e a sistemática do dia inicia: No estábulo, trocar a palha e retirar o esterco, conduzir os animais ao bebedouro, colocar no comedouro o feno, higienizar as tetas, ordenhar, e tantas coisas mais. Termina com a refeição da manhã Na mesa uma tigela com leite e uma fatia de polenta quente mergulhada nela. Era guloseima, aquela!
Havia coisas que não eram rotinas, mas inerentes à estação do ano, à cultura, ao clima, e ainda à necessidade quantitativa, cultural, ou financeira. Alguns afazeres não quotidianos eram tudo que adorava, quando tio Giuseppe saia do estábulo conduzindo o animal, no caso a vaca, para tracionar a carroça, era dia de trabalho no campo, cortar capim para se tornar feno secando ao sol, na espera para revolvê-lo, cochilar no casebre, arar, preparar a terra para plantar, plantar o milho e mais tarde, entre fileiras, abóbora, pepino, feijão.
Incontáveis lembranças desfilam no meu pensamento. Campos de capim dançando ao vento, trigais dourados brilhando ao sol.
A papoula entre o trigo parece esconder-se do procurar do menino, que dela quer o estame para gravar na própria testa a estrela que ela tem.
As amoreiras aqui e ali no campo, de folhas bem verdes não muito altas, (três metros). Não havia campos sem elas. Em um período do ano, tio Giuseppe em um cômodo, montava estrados com borda de madeira e fundo plano feito com canudos bem finos amarrados em paralelo.
Lá era berço do bicho da seda. Era junho?Julho?Não me lembro, mas com certeza sei que as amoras eram de um amarelado branco, maduras para degustar. O bicho da seda é guloso das folhas das amoreiras, tio Giuseppe alimentava-os todos os dias por um bom tempo. Após esse período, colocava nos estrados arbustos que permitissem a subida do bicho, afim de fazer o casulo que era mais tarde tirado e posto à venda. Havia um alternado uso do cômodo no período do inverno, quando não havia trabalho no campo,então montava-se ali um tear, máquina destinada ao fabrico de cobertas para camas. Artefato mastodonte, que por ser grande enchia o quarto de tamanho e barulho rítmico e cansativo Mas não deixava de ser interessante.
No meio de milhares de fios que enlouquecidos, saltavam ora para cima ora para baixo, com o impulso do pé. O tal bailarino corria ora pra direita ora para esquerda, entre eles arrastando uma linha, se puxar uma das duas cordas pendentes, do lado direito ou outra do lado esquerdo do operador. Agora imagine o operador gesticulando. Essa era a ginástica que o homem do campo, na hora de folga, praticava.
Quando choro estas lembranças... Este ser que fui que me fez ser assim agora. Penso que perdi tanto, para depois ser mais um pouco.
Agora que o Senhor acalma a minha mente e desacelera as batidas do meu coração e a visão da eternidade me dá tranqüilidade, aprendo a papear com amigo e afagar uma criança. Percebo Senhor, Tua presença constante no meu coração e no silêncio eu escuto a Tua voz. Obrigado Senhor, pela Tua presença entre nós.
Fran.