Por quê?
Por que ninguém tinha feito esta
pergunta?
Um dia talvez por curiosidade,
interpelado, por saber do meu passado, surgiu esta pergunta.
Foi um sim, no despertar de um sono
leve em madrugada quente. Feita de improviso e maldade, a reprovar o mal feito.
Dormir no trabalho! Quer ir ao Brasil?
A pergunta às três da madrugada feita
por um diretor não podia ser ignorada.
Ele havia visto uma luz no galpão e
quis verificar.
Eu estava trabalhando, melhor, deveria
estar, mas o sono das três me havia vencido.
A máquina funcionava e o trabalho prosseguia,
ao terminar da operação eu deveria ter
acordado, mas tudo havia falhado e a pergunta feita. O diretor disse:
Vamos, passo perto da tua casa, te
deixo lá.
Amanhã
vai se apresentar à minha secretária que providenciará tudo para sua viagem!
Tinha vinte e um anos nunca tinha visto
nada além daquele vale onde a infância passada entre dificuldade e guerra me havia
privado de experiências, mas um inato saber que pertence ao ser dava-me a
ousadia de fazer.
O desafio era grande: Estruturar em um país,
para mim desconhecido, uma fábrica.
Tinha a responsabilidade na montagem do
equipamento e manutenção, projeto e fabricação das ferramentas utilizadas
Manter esse compromisso foi difícil.
Abandonava a mãe viúva já de idade e a
irmã e porque não dizer os amores platônicos que pipocavam na cabeça?
A despedida da irmã de caridade, Priscilla,
que desde pequeno me acompanhava, marcou-me;
Vai, Deus te abençoe, ganso feliz no lago, nada sem te molhar.
Minucioso observador, tu quando menos
se espera tens a solução!
Parece ter sido valiosa a benção e a
previsão de êxito.
No Brasil, em 1954, muitos obstáculos a
superar ou contornar:
Transporte, a comunicação telefônica e verbal,
a adaptação aos costumes e alimentação.
O relacionamento com a direção que me
havia contratado, emigrantes de um regime fascista incapazes de entender
as dificuldades de um empreendimento
industrial nunca vivenciado, dificultava. A falta da convivência e o estímulo
da família e amigos nesta hora, aumentava
a saudade de tempos passados
Agora, compreensão, aceitação, estima e
confiança merecidas, e avaliadas por
amigos conquistados no trabalho e na convivência diária, era preciso.
Dei tudo o que pude dar de mim, recebi
generosamente de volta, desses amigos feitos aqui.
Pétala de uma rosa chamada Brasil que
me cedeu o perfume do seu povo e compartilhou comigo, os espinhos do viver
Saibam: cinquenta anos, meio século
passou.
Quarenta anos de comprovado trabalho de
diversificados projetos e fabricação em indústrias de estruturas, mecânica
industrial, máquinas de mineração, agrícola, e elétricas, etc.
Belo Horizonte.
Quando o sol no horizonte aparecia longe já
estava de vocês, meus filhos!
De volta ao anoitecer, o sono lhes
havia quietado,
privando-me dos seus abraços.
O tempo passou e ao descansar do meu
cansaço relembro e digo. Preciso de abraço!