Em Ghiaia di Bonate as aparições (Eu vi.Eu estava lá)
A mente corre no tempo, agora muito longe, como corre de mim o sono que encurta as noites e traz de volta o passado
Ghiaie di Bonate recebe o seu nome do terreno saibroso do Rio Brembo. Faz parte de Bonate Sopra e em pequena parte de Presezzo. Paróquia, eclesiasticamente, desde 1921, Ghiaie di Bonate, foi reconhecida civilmente, depois de muitas contestações, em 29 de março de 1944, na vigília das aparições. É a única paróquia da diocese consagrada à Sagrada família.
O Torchio é um pequeno bairro de Ghiaie que compreende algumas poucas casas perto do rio Brembo, entre uma extensão de campos e um viveiro de coníferas, dominado pelo planalto da Ilha que serviu de anfiteatro para as grandes multidões que estiveram presentes durante as aparições. De fato, entre 13 de maio até 31 de julho de 1944, nesta cidadezinha da região de Bergamo, vieram mais de três milhões de peregrinos, uma maré de pessoas que vieram a pé ou com outros meios colocando em perigo a sua vida por causa dos contínuos bombardeamentos e metralhamentos.
A Segunda Guerra Mundial afligia a Itália com lutas e ruínas. As pessoas viviam na angústiae com privações de todo tipo e o sonho de paz parecia inalcançável. Quando tudo parecia perdido para a Itália e para o mundo, quando o Papa corria o perigo de ser deportado para a Alemanha, a esperança voltou a nascer por milagre. Nesta cidadezinha desconhecida do mundo, no fim de tarde de 13 de maio de 1944, Nossa Senhora apareceu a uma menina de
sete anos.Como havia acontecido em Fátima em 13 de maio de 1917ao decorrer da Primeira Guerra Mundial, Nossa Senhora desce de novo para lançar ao mundo, despedaçado pela Segunda Guerra Mundial, as suas mensagens de esperança e de paz.As aparições de Ghiaie di Bonate foram definidas "O epílogo de Fátima”
Data: Domingo, 28 de maio de 1944.
Um dia de sol forte. Mamãe tinha o firme propósito de ir a Ghiaie di Bonate onde numerosos peregrinos iam animados de grande fé. A viagem de trem foi para mim uma experiência nova.
Na chegada, pessoas e mais pessoas, em cortejo sem fim, não havia espaço para nada,o caminhar foi longo sob o sol forte. Chegamos em um pequeno bairro de Ghiaie, uma extensão de campos e coníferas..
A minha impressão primeira,era de que uma invasão de gafanhotos havia devastado aqueles campos, as coníferas encontravam-se despidas de qualquer sinal que fosse tempo algum, sido um vegetal, o campo pisado em todas as direções. Em lugar cercado, uma pequena conífera determinava o ponto que em anteriores aparições a menina Adelaide via Nossa Senhora. Era o dia que Adelaide após uma semana de preparação em Bergamo, nas Irmãs Ursulinas, receberia a primeira comunhão; ela voltaria ao local das aparições no fim da tarde.
No decorrer do tempo, mais e mais gente reunia-se. A ânsia e o calor eram um tormento para toda aquela multidão calculada em 300.000. Não lembro de ter bebido ou de ter tido fome ou sêde, nem haveria como. Me aconcheguei em um galho de árvore, de pêssego. Lá de cima avistava parte do movimento. Aproximava-se a hora, os debilitados, doentes, enfermos impossibilitados de locomover-se eram transportados e situados perto do cercado. Ao redor não havia lugar para mais uma cabeça, nem sombra para protegê-la. O murmúrio se fez maior. Um pequeno grupo aproximava-se, entre eles, de vestes brancas a menina Adelaide. No cercado, ajoelhou-se. Um profundo silêncio calou na extensão do campo. Um militar fardado aproximou-se de Adelaide, um grito ecoou, não percebi a motivação, o murmúrio dizia da tentativa de, com um tiro na proximidade de Adelaide, assustá-la. Se tal era o propósito, nada valeu. Adelaide lá estava petrificada, com o rosto voltado para o alto da pequena conífera, onde Nossa Senhora manifestava-se pela décima vez. O silêncio voltou. De mãos postas como a rezar, os lábios imóveis, ela permaneceu. De improviso, outro murmúrio que virou grito dos fiéis: O sol está girando ! Tem mil côres ! A conífera ficou branca! Em fração de tempo agitou-se a multidão. Alguns dos enfermos se levantaram eufóricos dizendo-se restabelecidos, outros aos gritos de, milagres ! Milagres ! erguiam as mãos ao céu
Eu estava lá agarrado ao galho de pêssego, como a trucidá-lo de tanta ansiedade, não sei se por ver tanto, ou por espanto. Aos poucos a paz reinou. Conduziram Adelaide de volta,acredito eu,nas Irmãs Ursulinas em Bergamo. Eu olhei em volta, a multidão afastava-se muito vagarosamente, desci da árvore, não sem antes pegar um fruto, que mesmo longe de ser tal, por ser muito prematuro, poderia ser uma lembrança cravado em um coração de barro que mais tarde eu teria feito.O sol já deitou para lá do horizonte. A noite avança, nos deixando na escuridão, mamãe em vão procura um abrigo.Enfim, recolhidos ao pé de uma conífera,nos restava alimentar-nos consumindo um resto que mamãe havia trazido na viagem e descansar. O céu era repleto de estrelas muito brilhantes.( No hemisfério norte as estrelas são em menor quantidade, mas de maior brilho.) No campo um silêncio profundo,mas não por muito tempo; um ruído intenso, surdo, invadiu o céu. Aviões passavam a grande altura.Das bases nos arredores da cidade de Bergamo, potentes fachos luminosos varriam o céu e as balas das metralhadoras traçavam rabiscos brilhantes. Noite atípica que marcou toda uma vida. Mamãe aos quarenta anos tinha todo o vigor de uma camponesa, com recursos para o que desse e viesse.Começava o dia, nos estávamos a caminho para o retorno, mas muitos peregrinos faziam o inverso. Para mim ficou uma lição: A fé move montanhas, mas nada move o homen sem fé e sem esperança .
Fran.