Lembranças.
Deitado no escuro, a mente não pára, flutua, uma sensação de levitar nas nuvens.
Ao longe: gritos de crianças, ruidos de carroça.
Abriram as nuvens. Há calma profunda ao redor.
Lembro agora. Claro na mente.
Mamãe me arrasta pela mão, eu choramingando, passando a mão da parede da ruela estreita que nos leva ao jardim da infância.
Uma imensa porta de madeira, cravada de pontiagudos rebites, delimitava para mim o sagrado
e o profano. Começava a vida pública .
O átrio, com o teto em fatias de arcos, me atraía sobremaneira e instigava a imaginação, e propiciava ecoar qualquer canto divino ou nitrido equino.
A seguir, uma passagem clara convida a uma ampla sala com lateral direita toda envidraçada,
predominando nas cabeceiras, de um lado, a imagem de Maria Imaculada e do outro, uma fonte semicircular, e a saída para o pátio.
Contígua, uma sala com amplas janelas de ambos os lados, uma cátedra ao centro sobre um plano elevado, em frente quatro filas de mesas.
Eu encolhido, as mãos sobravam sem saber onde enfiá-las, a calça curta sem bolsos não permitia
disfarçar, o feitio especial tinha um particular a lembrar, dois botões na parte traseira davam
eventual rápida vazão. Como biombo a separar, estava eu lá sentado no meio de uma fileira, divisor das contendas dos baixinhos falantes e provocadores da frente e as girafas, magras, de pernas tortas e desengonçadas da última fila.
A professora, irmã de caridade.A caridade era tanta a sustentar e sobrar para mais de uns quarenta retalhos de gente.
A freira Prescilla toda de hábito e touca pretos, alegre, falante, redonda e risonha, de vez em quando a via enfiar o dedo indicador na touca e coçar, não sei se pela paciência pouca ou pela vontade louca de resfriar a cuca. Se mexe com papel, se corta se cola, se fabrica chapéu.
Chegou o final, tocou o sinal, se lava as mãos, se toma refeição após uma simples oração.
No pátio, a nogueira robusta,de tronco avantajado, estende pelos lados sombras e paz.
Quem queria paz? Queriam confusão,correrias, gritos em profusão.
Bateram palmas ! Ora essa! A abadessa sempre tem pressa, tem sua razão, a hora é de oração.
Juntos, de pé,de mãos postas, eis Senhor! A prece, por este dia, nós agradecemos, e para esta infância invocamos proteção.
Estômago lotado, membros cansados, olhos não mais arregalados, calmos, sem mais estrilos,
prontos para o cochilo.
De braços cruzados, na mesa inclinada a cabecinha a sonhar, a boca a babar.
Para a freira Prescilla, essa hora certamente era o alívio da mente e nessa calma aparente podia rezar calmamente. Que sono restaurador, mas quanto suor, havia mosquitos safados sempre a perturbar, lá fora galinhas apressadas, para a chegada dos ovos anunciar. Ao acordar,
se visitava a capela, ela à frente da fila, Prescilla, a entoar a cantoria: Ô Madre Pia ô Regina Tu del ciel, stendi il manto tutto santo sul tuo popolo fiel. A procissão acabava no portão.
A lição assim era dada, doses poucas mas concentradas. Se o tempo consegue desgastar....
A marca vai ficar.
Fran.
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