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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010





O coroinha 1940


Rodado, comprido, sem manga, funebremente preto, o manto cobria ombro e tronco. Cinco horas, é matina. Começa a nevar? Ou a nevasca já aconteceu? Ainda escuro. O coroinha convidado não faltava, honrado por uma tarefa a cumprir. No percurso a seguir continuava a dormir, cabisbaixo. Na branca maravilha perdia a trilha e tudo acontecia. Passava a igreja e ia....
Centro de todos os acontecimentos da paróquia, a igreja, orgulho, respeito e temor de todos, era para algum ateu comunista, ferrenha inimiga.Por ser coroinha e usar batina, eu era alvo da gozação, mas não importava, sempre distraido, não estranhava os apelidos. Pontual, chegava cedo para o ritual. Igreja fria de nave única, abóbada, bancos em fileiras uma de cada lado, a separar o masculino do feminino.O altar mór em plano elevado, ao fundo um manto de cor a variar, sustentado no alto por grande coroa dourada ao centro e mantido nas laterais por dois anjos presos ás paredes. Na parte posterior, o coro onde rezavam em comum, cônegos e seminaristas.Rezavam? Sei lá. Ora parecia louvor, às vezes, um horror, grito de pavor. Havia um prelado muito requisitado por paroquianos .Quando dos oficios dos defuntos, o canto do prelado era um ronco de motor, tudo vibrava ao redor. Naquelas matinas frias só havia a participar da celebração, tres irmãs de caridade, duas mulheres de avançada idade e o sacristão, e para encher a imensidão, vagava eu a toque da imaginação, apesar de muito ter exercitado.O celebrante às vezes orientava, outras beliscava. A consagração. Era tocar o sinal a indicar o momento especial. Correr ao campanario e fazer o que mais gostava, tocar os sinos. Mas para mim era pepino, pois eu era pequenino, aí surgia a sabedoria.Do alto da escada onde subia, pulava à revelia, agarrava a corda que podia, e com ela ia até ao chão, da repetição saia o som.Quando voltava ao altar, não havia força para aguentar, tropeçava ao andar, e a missa, um Santo Sacrificio, se tornava também complicado oficio. Digo quando voltava do campanário, porque do complicado ir e voltar das cordas, do subir e pular do sujeito, a coordenação dava defeito....era um otário no chão do campanário.


Fran.




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