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terça-feira, 18 de setembro de 2012

 
A benção dos campos
Transcorreu mais de meio século, especificamente setenta anos.O mundo mudou? O mundo não mudou nada, muda, transforma-se o ser humano.Que não mais diz ser. Diz que ele é, como tal arroga-se transformar o mundo, rebelde às leis mais sacrossantas que não poderiam ser violadas
Daqueles tempos, do que me lembro,conto agora.
Em um pequeno bairro na encosta dos montes,habitavam poucos mais de mil almas, como era costume identificar a densidade da população,Uma igreja edificada em honra aos Santos Vitale e Valeria com nome de Olate que, pertencente à diocese de Milano era o núcleo. Um santo padre, Padre Bonfanti zelava pelos paroquianos e por todas as tradições e costumes do passado.Nós morávamos em um grupo de moradias um pouco mais perto do monte,Uma família de quatro pessoas que participava dos eventos da paroquia Eu tinha dez anos, frequentava quase diariamente a celebração da Santa Missa incentivado pela mamãe zelosa e assídua na religiosidade. Como diziam as tradições, a bênção dos campos era um dos atos que com finalidade de uma auspiciosa colheita em clima propício praticava-se em data que a mente me falha,No dia determinado,bem cêdo, antes da celebração da Santa Missa que era celebrada às seis horas, quando lá longe vislumbrava-se que o sol ia surgir, Padre Bonfanti e o coroinha,( eu mesmo) íamos pelas estradas e trilhas que levavam ao alto do monte para a consumação do rito
Imaginem,vislumbrem agora Padre Bonfanti, estatura mediana,apressado, com sapatos um centímetro maiores do que os pés, de batina preta e sobrepeliz (Túnica de linho branco)barrete eclesiástico(Chapéu)que deixava salientes os caracóis pratas? Seguido, do coroinha,de cabeça baixa, ainda meio dormindo,atrás do padre, atordoado com a visão do repetido entra e sai dos pés nos sapatos do próprio? Tropeçava nas pedras a cada passo, derramando água benta do aspersório que transportava.
Chegando, o sol já clareava, via-se a cidade de Lecco inteira,o lago,os montes em volta. Apressadamente Padre Bonfanti colocava a estola(Símbolo da dignidade sacerdotal) iniciava a aspergir à direita,e à esquerda, na frente e atrás borrifando os campos do entorno, pronunciando palavras que para mim, eram dos Ostrogodos.O ritual era rápido feito com fé conciliado com todo o povo.
O retorno sempre apressado era facilitado pela descida, gratificante, porque o povo a essas horas nas ruas dava início ao dia,e ao nosso encontro reverenciava-nos em agradecimento.
Pensando bem,quantas coisas presenciei e vi nos oitenta anos da minha vida!
Um raio de sol aqui agora, atravessa a fresta da janela,
Mais um dia. Obrigado, meu Deus e Senhor
Ressoa entre paredes do apartamento uma ténue voz.
A bênção vovó! Deus te abençoe, meu amor!
Como posso acreditar que é a evolução da natureza que comanda e transforma tudo?
Deus os perdôe, não sabem o que dizem.
fran.


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