A sentinela
No horizonte, entre o céu e o mar, despontava o sol, não sei se no horizonte ou na vertical.
O navio, na verdade uma sucata do pós guerra
adaptado para passageiro,"demorou vinte e dois dias para o percurso de Gênova na Itália até o Rio de Janeiro" chacoalhava muito,muito mais que o normal. Naquela manhã, o capitão anunciou que estávamos em alto mar à deriva, forçado a parar o motor para reparo e avisou ainda que, tínhamos passado a linha do Equador.
Era o dia sete de março do ano de mil novecentos e cinquenta e quatro,meu aniversario.
Lá a linha do Equador provocou um corte na minha vida, assim como a linha com cerol dos meninos que soltam papagaio ao vento e provocando até infortúnio, .
Um quarto da minha vida lá ficou, no hemisfério norte, lá ficou a minha infância, a minha juventude.
Tinha vinte e dois anos.
Começava outra vida, outro desafio.
Estabelecido em Belo Horizonte, a princípio não sabia me localizar, não conhecia o idioma,o meio de transporte, a deficiência de comunicação, a falta de amizade. No trabalho, a pouca mão de obra, a falta de material, e,, porque não dizer, a pouca compreensão de meus compatriotas da fábrica, tudo parecia obstáculo, mas tudo superado.
Morava em uma pensão, base de outro funcionário da mesma empresa que não trabalhava na fábrica, mas sim no campo, traçando a passagem e montando torres de transmissão de alta tensão, que a fábrica produzia.
No fim da semana, para descanso e morada, era a pensão.
Todos eram rapazes fortes,robustos,acostumados aos empecilhos da vida. Prestativos e bem humorados, eles eram a minha guia. Eu ao contrário, era imberbe e mirrado.
A saída no fim da semana, nas primeiras vezes ia com eles,conheciam toda a malandragem da cidade, rodavam um monte de bares e lugares,o táxi era exclusivo a disposição,o gasto era alto mas não faltava dinheiro. Tornei-me logo caixeiro e controlador das despesas.
Um sábado de farra,as duas da madrugada,em um bar da boemia tomamos a especialidade da casa e queijo frito em seguida, cada um tomou o seu rumo.
Fiquei só,um pouco alegre, balanceado fui no ponto do bonde, fiquei à espera.
Um andarilho com o dedo indicador no meu nariz, deu a entender que deveríamos subir a pé a rua da Bahia
Não lembro mas, a morte de Getúlio Vargas, deu origem a suspensão dos transportes,segui então a pé para chegar na rua Rio Grande do Norte.
A chuva apressava os meus passos e a bebida ingerida pedia saída.
Na praça da Liberdade resolvi libertar-me deste sofrimento.
Naquele tempo, o jardim do palácio não tinha grades.
Avistei um cubículo à semelhança de um mictório público como os existentes na minha terra, entrei e rápido livrei-me do sofrimento
Não sabia que lá vigiava, dormindo, uma sentinela. Borrifei toda ela. Ao perceber o meu feito, deu tempo de despencar na avenida abaixo
como água no riacho e, com a enxurrada, sumi na estrada.
fran
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