Pesquisar este blog

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Comprimidos

Cheguei na cozinha enjoado. 
Alguma coisa tinha descido pela goela
e estava ainda por lá, dando um mal estar. 
Como de costume, aliás como obrigação médica, tinha que empurrar por lá, três comprimidos,
que tinham se tornado para mim uma penitência.
Encalacravam entre língua, dentes e dentadura até achar por onde passar...era demora e, na demora, acabavam de desmanchar e o amargo espalhar. 
O engolir mais água,às vezes,é a solução..é tudo de bom. 
Pensando bem, com o avançar da idade, tudo é dificuldade. 
Mas, se bem que na lembrança da minha meninice, tem um monte de burrices que me levam a pensar naquele tempo, quando com facilidade engolia qualquer comprimido .
Morava na periferia da cidade de Lecco, agora capital de província.
Cercada de montanhas, que são pré Alpes.
Eu morava numa pequena aldeia chamada Olate, ao pé de uma colina.
Sobre o monte,o castelo de Dom Rodrigo dominava o vale e vislumbrava a cidade. No entorno,vegetação cerrada e muitos pássaros.
(Don Rodrigo, personagem do romance, 
Os noivos prometidos. de Alessandro Manzoni) 
Lá o sol brilhava, em céu limpo.
Resolvi subir a colina para capturar pássaros, que seduzidos pelo apito do tamanho de um comprimido amarrado ao meu pescoço por um fio sutil, mas resistente. 
O apito era portento em ludibriar, por horas a fio, os pássaros, 
Eles aproximavam e pousavam na vara revestida de visgo.
Presos, sem mais poder voar, era só colocá-los na gaiola.
Naquela tarde, tudo deu certo, capturei três pássaros.
Levantei a gaiola e dei um grito de felicidade.
Mas a gaiola estava sem assoalho e os pássaros fugiram.
Entre o sufoco e o grito, engoli o apito,
que estava ainda entre os lábios.
O fio que o segurava ao pescoço, ficou esticado...
Foi um alvoroço...cortar ou não cortar?
Na dúvida,cortei. Na saída, o apito não apitou.

O difícil pra engolir o comprimido é entrar pela boca
e sair dela, pela goela 
fran

Nenhum comentário:

Postar um comentário