Onde vivia
Vivia no norte da Italia, em Olate, nos arredores da cidade de Lecco. Um lugar de poucas moradas agrupadas no vale aos pés dos montes. Muito tempo passou, (mil novecentos e quarenta,) agora é reduzido o lembrar de tudo, Deus sabe das coisas! Reduziu o lembrar para amenizar a dor da saudade. A tecelagem, o pátio, os terraços, as escadarias que davam acesso ao campo e às hortas. Como esquecer ?
Do pátio dava-se entrada à moradia, ao corredor, que parecia afunilar todo o vento que descia dos montes e campos .Digo parecia , porque ao passar o corredor, o vento expandia no amplo terraço que havia em frente às portas de entrada, e permitia ver as moradias inferior e superior,dando acesso também ao banheiro comunitário para duas famílias.A primeira porta, de duas bandas, madeira de lei maciça, aberta de dia a mostrar outra de vidro, de uma banda só, fechada a preservar a privacidade. Abrindo da esquerda para direita, a porta de vidro era entrada para dois cômodos. Um ambiente retangular. Imagine a disposição a seguir. Ao abrir a porta para dentro ocultava-se a pia colocada na reentrância de um vão do tamanho da própria porta, onde também na parte superior estavam expostas as panelas; entre o marco da porta e o canto adjacente, o lixo e a vassoura No continuar à direita,à distância do dito vão um palmo,outra reentrância, a janela;dela e por ela via o meu mundo.Embaixo a funilaria, mais para frente do lado direito, a marcenaria, bem pertinho ao meu lado a janela de um vizinho e à esquerda, distanciada uns quatro metros a de outro. A tecelagem lá adiante a confinar com os campos, determinando uma linha onde bondes e carroças transitavam. Às vezes sumiam no nevoeiro, mas sempre passavam lá, como estava lá aquela montanha enorme e grisalha que imponente dava-me medo, pedra vulcânica, que desprendia pedaços que caiam. A continuar sempre à direita, uns quarenta centímetros acredito eu, o segundo canto do retângulo e o marco da porta do dormitório, ao lado um canapé estilo não sei qual, vamos dizer, Carlota ou coisa parecida.Em seguida o fogão a lenha revestido de ladrilhos verdes espinafre contidos com rebites de cabeça grande,redondas e douradas. Exuberante o conduto da fumaça, saía da parte superior da grossura de um pote de conserva de dois litros, cilíndrico, atravessava no ar o cômodo e chocava-se com a parede lateral bem sobre a lareira.Visual forte também o móvel do canto entre a parede do fogão e a lareira, especial a parte superior onde em cada plano, respeitando a hierarquia, pousavam em fotos os antepassados. Na parte inferior, o reinado de Baco, o vinho indispensável no quotidiano. A cristaleira e lareira dominavam a terceira parede do cômodo, na saliência superior da lareira, entre adornos, dois castiçais de bronze do tamanho de uma garrafa. Na parte inferior a lareira propriamente dita,sempre velada com painel de saco pintado a óleo retratando verdes campos.
A quarta parede em frente ao fogão tinha uma janela de onde via-se o terraço da entrada, à direita um móvel como cômoda , de duas portas, onde estava o fogão de duas bocas a gás, entre o móvel e a parede, no chão o medidor do gás. Á esquerda a máquina de costura, na parede a gaiola do canário junto ao marco da porta de vidro da entrada. Todo isto, rodeando a mesa retangular de perna roliça com o tampo de linóleo. Na descrição da entrada mencionei o terraço e o banheiro comunitário Este merece consideração singular. Por falta de água no local na instalação da privada turca pensou-se em aproveitar a água dos dias de chuvas, para limpeza, despejando em telha colonial a descarga pluvial da morada vizinha. Imagine-se agora no banheiro, agachado no processo a desenvolver,se também as nuvens resolvessem soltar a sua porção. A água misturando, a máquina molhando e lá do fundo do canudo o ronco agudo.
O quarto: Atrás da porta, na parede, um cabide repleto de roupa, uma janela, duas camas de solteiro separadas por cama de casal e criados mudos. Na cabeceira desta, um quadro: moldura larga, lisa madeira brilhante, ressaltando a escultura em bronze, alto relevo, da Virgem Maria com o Menino Jesus.
Completava um armário ladeado de duas cômodas, os móveis todos ornamentados em bronze Como em trono, sobre uma cômoda, protegida com uma redoma, estava: Convite a orar, a imagem da Virgem Maria.
Fran.
Essas lembranças são sempre saudáveis para uma vida plena, muito bom vô !
ResponderExcluirDeu para conhecer um pouco...
ResponderExcluirOs diários deviam ser obrigatórios. Só quem conhece o seu passado pode entender o seu presente, e pode fazer o seu futuro.
Parabéns, papai. E conte mais.
Giovanni