Os inocentes
Vão longe. os anos.
Quase três quartos de século.
Vocês acham que posso lembrar tudo ?
Outro dia os óculos colocados no pescoço oscilavam no dorso e eu os procurava.
Precisava lembrar? Não! Precisava ver onde estavam
É assim mesmo,
Não lembro tudo mas sei que aquilo que vi com os meus olhos é o que vos conto
Ainda menino, o que vi petrificou o meu ser e me fez insensível a muitas coisas na vida
Era cedo mas já tocara as seis na torre da igreja eu estava atrasado, ia servir a Santa Missa
Um grupo de pessoas sussurrava o acontecido .
Não passou muito tempo a praça ficou deserta.
Quando a missa terminou, ao sair, a praça estava repleta de gente, uns com buquê de flores do campo, outro, garrafas de vinho, pães e muito mais.
Homens e mulheres iam em direção à cidade.
Eu os segui
de boca aberta como sempre e orelhas em pé, a ouvir e saber do acontecido
Chegamos na estação ferroviária, lá havia um comboio para transporte de gado, escoltado e
vigiado pela guarda da Gestapo (policia secreta nazista)
A gente que lá chegava reagrupava ao longo do comboio a oferecer as dádivas que haviam trazido aos encarcerados nos vagões.
Nesta hora, o que mal havia entendido ficou um pouco mais claro.
Mais tarde me explicaram o ocorrido
Em uma pequena manufatura trabalhavam em períodos de três turnos um pequeno grupos de profissionais,
Não souberam me dizer com certeza, mas no período noturno houve uma interrupção do trabalho,uma greve. Quando o grupo saiu do trabalho e entrou o grupo da manhã, a Gestapo chegou e levou sem distinção quem ali estava e os colocou no comboio que o levaria para a Alemanha nos campos de concentração
A razão da presença de muitas pessoa era fingir uma despedida com o propósito de entregar dádiva e também escondidos no buquês de flores, nas garrafas, no guarda chuvas, na bengala. alavancas, alicate, facas, laminas de, serra e outros objetos no intuito que no percurso até o passo do Brennero, nos Alpes ao longo da fronteira entre a Itália e a Áustria, pudessem talvez, arrombar um vagão, pular e com sorte, vencer o obstáculos das metralhadoras da escolta, e pudessem se salvar,talvez até ferido, para serem ajudados e recolhidos por Partigianos, refugiados nas montanhas, facção que lutava contra os, nazifascisti
Soube mais tarde que um ou dois tiveram a sorte de fugir.
A guerra acabou, não acabou a lembrança!
Nas noites quando o murmúrio cala, no silêncio aquelas lembranças afloram, a garganta aperta, as lágrimas escorrem a lembrar aqueles inocentes.
O passado é historia e experiência, se a ignoramos, não há progresso no futuro.
ResponderExcluirpara mim
Pai,
bonito e triste.
E pensar que essas coisas continuam a acontecer mundo afora...
E algumas pessoas nem percebem, esquecem...
Guardar na memória, não ignorar e repassar para as outras gerações, como você fez, é uma forma de ser solidário, de contribuir para que isso não aconteça mais!
Bjão
Elisa
Puxa pai!! quantas lembranças fortes....você foi moldado a ferro quente, né?! Felizes de nós (seus filhos) que tivemos tanta paz, aconchego e segurança...e passamos despercebidos pela ditadura que, penso nem de longe se assemelhou aos horrores de uma guerra...você é um vencedor! e também essas suas vitórias tem que ser contadas!E ainda hj, a cada dia, vamos conhecendo melhor suas lutas...continue se lembrando e querendo nos contar: é muito importante pra mim!!
ResponderExcluirBeijos! te amo!!
Irene
ResponderExcluirpara mim
Muito lindo!!! Seu passado é muito rico. Vc ou alguém poderá pensar talvez que o passado de cada um é o de cada um e que todos tem o seu valor. Mas, suas histórias são lindas e tem que ser repassadas, contadas fazem bem pra você e creio que pra todos que leem é muito bom ouvir.
Te amo , lindinho!!! beijos e aguardo outras. Envie para o Dedé, vc enviou??