Talvez esteja errado ao posicionar no tempo os acontecimentos, nunca soube e agora falha a memória para me situar na história: foi entre mil novecentos quarenta e mil novecentos e quarenta e um.
O tempo demorava a passar naquela idade: oito ou nove anos
O Menino Jesus, ao chegar o Natal, determinava o espaço de tempo entre um ano e outro. Lá em casa mamãe dizia que de vez em quando Jesus menino perdia o caminho e demorava um pouquinho, às vezes não chegava e o ano alongava, o presente de Natal sumia ninguém o via. Não havia solução. Era esperar mais um tempão...
Mas, queria dizer, ou melhor, contar, o que aconteceu naquele tempo. Eu estudava, ou precisamente, frequentava sem estudar muito, num colégio na cidade di Lecco.
Era amigo meu Antonio Cameroni, morador do mesmo bairro,
Sujeito caxias, que entregava tudo o que eu fazia.
Apesar de ser uma distância boa, nós íamos a pé, chutando latas, tocando campainha das casas, fazendo o que dava na cuca. Coisas malucas.
O dia era bonito, um sol escaldante.
Nós vínhamos atravessando a praça em frente ao palácio municipal, quando me deparei com um cartaz na parede que, deslocado na parte superior, talvez pelo calor, caía como a fazer uma reverência ao meu passar. Eu logo reagi com veemência como quem não tem paciência e passando a mão de baixo para cima gritei: levanta a cabeça! E continuei o caminho, mas ao passar em frente ao portão, lá de dentro saiu uma mão que me pegou pelos panos e com um dedo no nariz queria saber por que fiz aquilo. Não soube dizer.
A infração constatada e a minha moradia anotada, apesar da mentira não vingar, porque o que estava anotado no diário me entregou. Liberado, saí angustiado e magoado: afinal o que teria feito? O que estava escrito naquele cartaz?
No meu saber não cabia tanto, sabia lá o que dizia?
Meu pai corria o risco de ser deportado para campos de concentração nazista.
A minha casa longe, as lágrimas que molhavam o rosto misturavam-se com a poeira, pareciam afetar a visão, não sabia se voltava para casa, ou fugia para os montes. Havia feito algo errado, alguém deveria me ajudar.
Fui para casa e contei tudo para mamãe.
Ciente do problema criado, mamãe procurou o conselho de um assessor municipal, morador vizinho e amigo, que a orientou para que meu pai, antes de voltar para casa após o serviço, se apresentasse aos sindicatos como trabalhador voluntário nas fábricas da Alemanha. Tal ato seria prova de fidelidade á causa
Alemã. Contrapondo a polícia alemã, que esperava a chegada de meu pai para a deportação por causa da rebeldia do filho ao proclame da propaganda nazista, meu pai teve como defesa a apresentação do pedido de trabalho voluntário na Alemanha.
Por vários anos ficou longe, muito sofrimento passamos todos nós.
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